Rua da Antípoda, nº 197

Adorado Sr. Baldo,

Tanto tempo se passou e não obtive respostas palpáveis sobre sua partida, às vezes me pergunto se realmente se foi ou está em mim à espera das minhas próprias respostas. De qualquer forma, continuo a lhe escrever estas cartas, na esperança de um dia lhe ver retornar.

                                                                                                                                                                    De sua querida leitora.

“Como acreditam os sábios, sempre haverá um pouco de Baldo em cada um de nós, não por aceitação, mas por companheirismo.” 

Badameco

“Havia algo de estranho em seu olhar, era como se eles tentassem me narrar algo ao qual eu ainda não tinha capacidade para traduzir. Eram como hieróglifos antigos”.

              
              Passava da meia-noite e Isaq ainda não estava interessado em voltar para casa.
– O mundo está em torno de uma forma vaga! – gritava um senhor à frente café no qual ele estava. Pensava consigo que seria melhor ignorá-lo para evitar problemas, enquanto isso tomava notas sobre o livro que estava a ler.
– Seu cappuccino com chocolate, senhor! – anunciou o atendente quebrando sua concentração. Ele abre espaço entre os livros e agradece com um aceno de cabeça. Toma um gole e retorna a revezar entre a leitura e algumas anotações.
              
              
              – Há meses que não largas este livro, será que não pode falar comigo hoje?! – comentou Camila, mais passiva do que pretendia – O que há de tão interessante? – disse puxando o livro das mãos de Isaq, que a ignorava até então.
– Não! – levantou-se num pulo, tentando pegar de volta o livro, sem obter sucesso – Camila me devolva o livro agora! – falou, deixando soar todo estresse pela situação.
– Que língua e desenhos são esses? – indagou ela, parecendo se divertir com o seu estresse – Não estou entendendo muito… – continuou, enquanto folheava as páginas.
– Camila… – respirou fundo – é um livro antigo, por favor… – continuou, saindo detrás da escrivaninha – tome mais cuidado. – concluiu, tomando por entre suas mãos a cintura dela; que por sua vez fechou o livro, colocando-o sobre a mesa.
–Se soubesse, haveria tomado de ti esse livro antes.
              
              
              “Deixe seu recado após o…” era a quinta tentativa. – Droga! Nem para atender o maldito telefone… – Camila decidiu então ir atrás do laboratório onde ele trabalhava, imaginando que se distraíra com alguma pesquisa. Desceu do carro, olhando para os lados com certa desconfiança; não imaginara que aquele estacionamento poderia ser tão macabro sob a luz dos postes.
              Foi atravessando o caminho delimitado por placas de concreto sobre a grama; sentia o cenário ficar cada vez mais sombrio. Havia vários insetos batendo na proteção da lâmpada do poste. Era este ruído e o de seus sapatos que quebravam o silêncio.
              Por um momento Camila jurou ver uma silhueta por entre as árvores e uma luz de relance iluminar alguns galhos. Assustada, decidiu parar para tentar ouvir melhor os sons ao seu redor. Neste exato momento, seu telefone tocou, fazendo seu coração palpitar freneticamente; era Isaq.
– Oi! Estou perto do laboratório. Onde está? – disse, deixando a respiração mais profunda lhe confortar.
– Laboratório?! Que estais fazendo aí, Camila? – mas a indagação de Isaq, cortou-lhe qualquer possibilidade de calma.
– Há mais de uma hora atrás me ligaste para que viesse lhe buscar… – Camila agora estava sentindo o pânico tomar-lhe os nervos.
– Camila, eu não lhe liguei… Essa brincadeira não tem graça – disse-lhe ele, impaciente.
              Ouvira atrás de si um ruído de passos a se aproximar, neste momento, a luz do poste falhou. Com o coração a ponto de lhe saltar a boca, Camila correu em direção ao bloco principal, deixando Isaq sem resposta do outro lado da linha.
              Agora em frente à fonte do bloco principal, Camila deu de frente com um senhor; este mesmo a notando descabelada e ofegante se mostrara indiferente.
– Já notara o céu hoje? – ele enfim declarou olhando para cima de si – É dia do alinhamento que coloca em liberdade o que os humanos têm de pior – ao concluir a frase, este se resumiu em encará-la com um sorriso que não lhe parecia nada agradável.
              Atônica, Camila desviou o olhar para escadaria atrás de si que dava para porta de entrada principal do bloco, notou-a semiaberta e se lembrou de Isaq. Colocou o telefone sobre a orelha novamente.
– Camila… Camila! – praticamente gritava do outro lado da linha – Pare de brincadeiras, Camila. Responda-me! – sua voz nitidamente alterada.
– Não estou de brincadeiras, Isaq… – Camila deixou transparecer a insegurança que sentia – Me diga, por favor, que é você fazendo isso… – ela ainda estava a encarar a porta semiaberta, seus olhos agora começavam a ficar borrados.
– Com quem estava falando? Há alguém contigo aí? – de repente todo estresse deu espaço a preocupação, a voz falha dela deixou claro não estar de brincadeira. Um silêncio seguiu – Camila?! Saia daí agora! Eu não estou aí… Saí às 18h, como sempre… – somente a respiração ofegante dela era a resposta.
              Ao ouvir tais palavras era como se a frase do senhor ecoasse em sua mente. Então se virou para perguntar o que estava realmente acontecendo ali, e assim que olhou novamente a fonte, tomou um susto; o senhor não estava mais ali, em seu lugar estava um gato rajado a encará-la. O susto fez Camila recuar, ela acabou caindo ao pé da escadaria. Um pouco distante de si, luzes piscaram por entre os troncos quase fundidos das árvores. Tomada pelo horror, sua respiração em um solavanco a deu forças para se levantar e correr rumo à porta principal. Atrás de si era possível ouvir passos apressados, agora despreocupados em ser notados. No alvoroço para se colocar em pé, Camila deixara cair o celular.
              
              
– Camila?! – despertou como se estivesse dormindo há muito tempo – Camila?! – ouviu seu chefe continuar a chamá-la e se forçou a tentar reagir.
– Sim?! – disse meio mecanicamente por entre dentes semicerrados.
– Os documentos anexados ao memorando, até às 17h de hoje; se continuar dormindo acordada não terminará nunca. – concluiu jogando sobre a mesa uns papéis. Camila não respondeu, estava ainda com o olhar fixo a sua frente, olhando além da tela de espera do computador.
              Naquela tarde acabou por atrasar alguns prazos e só saiu do escritório às 19h. Isaq havia pegado o carro neste dia, então decidira ir a pé para casa. No caminho, Camila notou que havia um gato rajado a segui-la; parou e se pôs de joelhos a chamá-lo, este veio correndo receber o afago. Não demorou muito e ele já estava deitado com a barriga para cima a ronronar. Camila notara uma coleira presa a seu pescoço com um pingente pendurado, nele estava gravado “Pili”.
– Olha só, que nome inusitado… – disse aumentando a intensidade de suas carícias. Sentiu sob o bolso da calça o celular vibrando, era Isaq perguntando onde estava –Preciso ir agora, Pili. – disse concluindo com um carinho em seu queixo e se levantando – Volte para casa… – disse imaginando que ele teria uma, já que estava usando coleira. E se foi. Pili continuou ali, agora sentado, vendo-a se distanciar.
              Ao chegar a casa, foi recepcionada com um jantar digno de elogios.
– Boa noite! – cumprimentou Isaq, sorridente, enquanto saía da cozinha com um vinho em mãos – Hoje iremos comemorar – continuou empolgado – esta tarde, fiz uma descoberta que poderá mudar nossas vidas e a história. – concluiu como quem conclui um discurso e espera os aplausos.
– Ora, ora… – disse Camila, após bater palmas em tom de brincadeira, sem entender muito, porém se deixando levar pela empolgação de Isaq, este apenas riu e deu de ombros brincando mostrar modéstia – Mas então, do que se trata esta descoberta mágica?! – aproximou-se dele, dando-lhe um beijo, então foi em direção à cozinha lavar as mãos para jantarem.
– Ainda não sei ao certo com toda certeza – disse Isaq, com certo mistério na voz.
              Conversavam como se algo grandioso estivesse por vir. Isaq lhe narrara como havia encontrado um livro antigo. Sua equipe havia, cuidadosamente, escavado durante meses um terreno com indícios históricos, sem obterem uma resposta sequer. No entanto, na noite anterior, tinham chegado a um nível do terreno que apresentava uma camada que poderia ser identificada como uma edificação muito antiga; e somente naquela tarde é que encontraram objetos que indicavam a existência de uma sociedade. Dentre estes, Isaq achou o tal livro, que possuía uma escrita considerada criptografada; sua equipe havia o embalado para estudo e Isaq assinara uma licença para estudá-lo fora das mediações de seu laboratório. Já que se tratava de uma pesquisa nível de governo, Camila lembrou daquelas agentes de filmes fantasiosos demais para seu cotidiano e agora ironicamente se sentia próxima de ser uma possível guardiã de um segredo importante.
              Isaq notando seu devaneio pegou de sua bolsa, que estava sobre o chão, ao lado de sua cadeira, o livro, que estava meticulosamente plastificado. Camila tinha, agora, toda sua atenção voltada para ele.
– Há desenhos que nunca vi. Criptogramas muito evoluídos para época seja esta qual for – comentou, folheando algumas páginas e mostrando-as para Camila. A escrita quase apagada pelo tempo ficava contrastada com os desenhos de traços ainda escuros.
              Em uma das páginas um símbolo, em especial, chamou a atenção de Camila – O que significa este? – disse, apontando-o.
– É justamente isso que me intriga… – fez uma pausa, analisando a página por inteiro – Este símbolo é de origem egípcia, é curioso haver associações de um povo tão distante. Ele significa “nascido em segundo lugar” os egípcios e outros povos usavam essa expressão para nomear aqueles que eles consideravam capazes de transitar entre dois mundos; o dos vivos e dos mortos. Conta-se também que somente semideuses podiam vê-los, meros mortais só os viam quando a morte estava próxima ou então os próprios mortos. – Camila sentiu um arrepio lhe subir pela espinha –Mas é claro que são apenas histórias de povos antigos com muitas crenças e superstições nunca provadas – concluiu com um sorriso, notando o desconforto de Camila.
– Então podemos estar diante de indícios de uma sociedade nunca narrada antes? –
              Isaq respondeu com um aceno afirmativo com a cabeça. Naquela noite conversaram ainda sobre outros assuntos; mesmo feliz com a descoberta de Isaq, algo naquele símbolo inquietava Camila.
              
              
              Há três dias, Isaq analisava um símbolo que aparecia em várias citações no livro como em notas explicativas. Ao que parecia, o livro narrava rituais místicos dessa sociedade.
              Ao olhar a hora em seu celular, notara duas ligações perdidas do laboratório, além de uma de Camila. Isaq imaginou que, pela hora, seu assistente havia ficado até tarde no laboratório e quem sabe descoberto algo. Pensara em lhe retornar, porém exatamente quando acessou página de registros, seu celular tocou, era um número restrito.
– Sim?! – atendeu alterando a voz.
– Isaq, onde está? Sai do escritório agora. – a voz conhecida lhe dera um conforto – Meu celular descarregou, peguei um emprestado aqui na recepção.
– Mata-me de susto! – Isaq deixou soar por entre um suspiro de alívio.
– Que houve? – indagou a voz, sem entender.
– Deixe para lá. Estou no Café de sempre, venha para cá e vamos juntos para casa.
              
              
              – Algum trocado moça? – um flanelinha disse, batendo no vidro do carro. Não havia vagas na rua do Café, Camila acabara entrando em uma das transversais próximas.
              Fez um sinal de não com a cabeça, manobrou o carro, deixando-o bem no foco de luz do poste. Desceu olhando para os lados, com certa desconfiança. Havia insetos batendo na proteção da lâmpada do poste. Era este ruído e o de seus sapatos se chocando com o chão que quebravam o silêncio.
              Conseguira notar um gato sentado a encará-la, sob a luz do poste mais a frente; por maior que fosse sua compaixão por animais, Camila não conseguiu conter o arrepio que aquela visão lhe despertara, havia algo de familiar naquele animal.
              Quando aparentemente estava com os pensamentos próximos de uma resposta, seu telefone tocou.
– Estou a duas ruas daí… – disse, sentindo os pensamentos ficarem distantes e a realidade mais próxima.
– Camila, eu descobri algo, e inexplicavelmente sinto que você precisa saber…
– Já estou chegando, então conversamos. – disse ela, se lembrando do trato que ambos fizeram de não tratarem de assuntos ligados ao livro por telefone.
– Aquele símbolo, Camila… – continuou ele, ignorando-a por completo – pode ser traduzido ao pé da letra como “Pili”… Significa algo para você?
              Tais palavras gelaram as mãos e fizeram tremer as pernas de Camila. De repente, o cenário ao seu redor começava a se desconstruir. Camila sentiu a vista embaçar e suas pálpebras pareciam pesar toneladas. Não suportando, levou as mãos ao rosto e esfregou-as sobre os olhos. Quando tornou a abri-los estava de frente à escadaria principal da universidade onde Isaq trabalhava.
“Já vira o céu hoje?” uma voz familiar ecoou atrás de si, fazendo-a estremecer.
– Isaq, eu já vi isso acontecer… – Camila estava apavorada.
“Pelo visto sabe que dia é hoje…” continuou a voz, agora em um tom sarcástico.
              Como nas lembranças de Camila passos apressados se moviam em sua direção, vindos das árvores. Sem se atrever a olhar para trás, ela tomou fôlego e se pôs a correr escadaria acima.
“Não adianta correr, senhorita Camila. Podemos nos encontrar aqui e agora ou depois deste tempo”, a voz agora soava distante, no entanto o som dos passos pareciam se aproximar com mais velocidade.
              Ao atravessar a porta principal, Camila travou a porta e seguiu correndo. Ao adentrar no primeiro laboratório que encontrou destrancado, ouviu o som da porta sendo arrombada atrás de si. Sentiu que este seria o fim e cedeu sobre o chão, de joelhos, levando as mãos sobre o rosto e esperando pelo pior.
              Só conseguia ouvir a batida de seu próprio coração descompassado e então sentiu o celular vibrar sob o bolso da calça, quando abriu os olhos estava na rua que ficava no caminho para sua casa e a sua frente estava um gato rajado sentado a observá-la.
              Sem entender, Camila pegou o telefone e leu a mensagem de um número desconhecido.
“Nem todos os hieróglifos são decifráveis”.
              Confusa, Camila olhou o gato e checou se a coleira ainda estava em seu pescoço. De fato estava e em seu pingente estava agora gravado “Isaq”.

A intempérie da aurora

 “A chuva sempre me atraiu. Esse céu nublado dando passagem para meus presságios de tempestade.”

              
              Aurora estava ali deitada, olhando-o e a imaginar como poderia conter em si tamanho carinho por Frederico; mesmo abraçados, era como se não estivessem perto o suficiente.
              Conheciam-se há apenas sete meses, mas seus olhos aprenderam a se comunicar em menos tempo.
              – Água ou fogo? – indagou Frederico.
              – Água – respondeu Aurora sem entender onde ele queria chegar.
              – Amanhecer ou pôr-do-sol? – continuou ele.
              – Pôr-do-sol, você…? –
              – Amanhecer. Pai ou mãe? – perguntou ele rapidamente.
              – Ouro de mina… – disse cantando. Ambos riram. – Certo… Pai e você? – respondeu agora mais confortável.
              – Pai também… – Frederico puxara os lençóis, os cobrindo, arrumara o travesseiro, agora melhor visualizando Aurora – Lembrança ou momento? – indagou.
              – Momento.
              – É… Momento também. – olhou para o teto como se pensasse em mais uma dessas perguntas. Não demorara muito, então ele voltara seus olhos para Aurora, que agora estava sentada e encostada a cabeceira da cama. – Amor ou paixão?
              E a pergunta acabara a pegando de surpresa. Era apenas uma pergunta, mas a escolha era tentadora. Havia algo na palavra amor que a entediava ao passo que também a encantava, parecia caber ali a inocência. Enquanto a paixão parecia quente, volátil… evaporável e intensa ao mesmo tempo.
              – Ah! Vamos lá, responda… Não é para pensar tanto assim… – disse Frederico, inquieto com sua demora.
              – Amor – por fim disse, sem muita certeza do que havia de tão atraente na paixão para tamanha dúvida. – Então, amor ou paixão? – perguntou tentando afastar de si tal pensamento.
              – Amor – respondeu Frederico, sem muito caso – E agora estou com aquela música na cabeça… – comentou isso e cantarolou um trecho. Aurora riu; ainda pensativa desviou o olhar para a parede à frente da cama, na qual encontrou seu próprio reflexo, meio apagado, em um dos quadros espelhados.
              –É como se já nem existisse… – pensou em voz alta, deixando transparecer a incerteza na voz.
              – Como assim? – indaga Frederico, como se a frase não lhe fizesse o menor sentido. A própria voz e a dele lhe soaram como um bumbo, afastando-a dos devaneios. Aurora preferiu ignorar a pergunta, se aproximou dele, beijando-lhe o maxilar e seguindo até os lábios.
              
              
              – Não acha que ficará tarde?
              – Céus! Que susto! – exclama Aurora rindo de si mesma – O que ficaria tarde? – pergunta tentando se acalmar.
              – Para nós voltarmos ao hotel… ? – retruca em tom inocente.
              – Nós? Não há nós… eu gostaria apenas de apreciar a vista. – responde enquanto se afasta em direção à praça. Ele simplesmente a segue e se senta ao seu lado no banco. Aurora nada diz, só se vira para ele e o observa, tentando conter o agrado que tal companhia despertara.
              – Sou Frederico… – mas disso Aurora já sabia. E então passaram o fim da tarde e início da noite conversando, naquele local que se escondia do centro da cidade em meio às construções antigas e árvores. Descobriram em si coincidências que não caberiam em um livro. Durante estas horas se perderam da noção de tempo.
Já era noite quando ouviram algumas vozes que mais pareciam ser de uma multidão a se aproximar.
              – Acho mais seguro voltarmos para o hotel…
              – Não seja tolo. Deve ser apenas um grupo de amigos. – disse-lhe tentando parecer despreocupada. Até ouvir as vozes aumentarem em volume. Segurou uma das mãos de Frederico e apressaram os passos por entre vielas fracamente iluminadas pela lua. Aurora ria, divertindo-se com o modo desengonçado como tropeçavam em algumas entradas elevadas das casas, porém o nervosismo ainda transbordava dos dois. E conforme o som da multidão se extinguia, diminuíam os passos.
              Com a multidão despistada, se foi também o senso de direção que indicava para que lado fosse o hotel. Entreolharam-se e seguiram, sem nada dizer, na busca de algo familiar naquelas ruas, até então desconhecidas, que os levasse até o hotel.
              Não demorou mais do que uma hora para o encontrarem. Já no hotel, notaram um grupo de jovens falando tão alto na recepção que poderiam jurar ser a, até então temida, multidão. Não houve comentário algum, somente risos envergonhados pela situação. Alguns amigos de Frederico que estavam ali fumando o cumprimentaram, já passava das duas horas da madrugada; Aurora aproveitou e se despediu. Ambos estavam tão ligados ainda que, naquela madrugada, em nada pensaram sobre o ocorrido.
              
              
              – Não irá falar nada sobre o filme, Aurora?
              – Hã?! Sim… foi interessante.
              – Somente…? – seus olhos agora já não se cruzavam com tanta frequência, e quando o faziam não havia diálogos, era apenas um estudo de dois vazios.
              
              
              – Almoço amanhã às 14h?
              – Está brincando?! Quem almoça esta hora?
              – Nós! – disse Aurora enquanto acariciava a nuca de Frederico. – Estou contando com um leve atraso de duas horas. – trocaram um olhar cúmplice quando Aurora concluiu a frase.
              – Marcado! – concordou Frederico com um sorriso no canto dos lábios.
              
              
              – Céus! O que é aquilo…
              – O que?
              – Ah! Desculpe-me, acabei pensando em voz alta. – Respondeu Aurora, envergonhada, ao desconhecido, enquanto desviava o olhar para Frederico, que já estava todo molhado e com seu guarda-chuva todo revirado, de mais nada adiantando. À medida que a chuva foi aumentando, Frederico correu para o carro, já não se importando com o guarda-chuva.
              Aurora, que observava tudo de longe, não conseguiu conter o riso ao vê-lo prender o guarda-chuva a porta, impedindo-a de se fechar. O desconhecido ainda lhe lançava olhares inquietos de interrogação.
              
              
              – Eu havia dito às 14h, já havia neste horário a sua possibilidade de atraso. Ainda precisou de mais 40min? – disse Aurora com um jeito irônico abrindo o portão da garagem.
              – Não sei do que estás falando… – retrucou Frederico, galanteador como sempre. –Madame! – disse-lhe abrindo a porta do carro – Está linda hoje! – concluiu, com um olhar sedutor.
              – Obrigada! – Respondeu rindo sem jeito. Desengonçada, acabara batendo a cabeça antes de entrar completamente no carro. Frederico tentou conter o riso, no entanto, ao cruzarem os olhares, ambos caíram na gargalhada – O que a inveja de minha beleza não faz, não é? – riram a ponto de chorar, Frederico quase deixava cair das mãos o cigarro, felizmente não o fez; o terminou e entrou no carro.
              – Para onde vamos então? – disse empolgado, ao colocar o cinto.
              – Imaginei um ótimo restaurante. Dizem que a comida é fantástica.
              – Dizem? – indagou Frederico, assustado – Não conhece lá?
              – Iremos conhecer! – respondeu Aurora com um sorriso empolgado – Não poderia ser uma cobaia desacompanhada – e somente após falar é que se deu conta de que talvez não fosse lá uma boa ideia como imaginara. Sorte sua que havia se enganado.

 

              – Creio que seja “somente” isto mesmo. –
              – E qual era mesmo o nome do filme…? – Aurora o encarou por alguns instantes e desviou o olhar para a janela, perdendo-se ao olhar a estrada passar em vultos; sequer respondera. A chuva, antes em rajadas, havia se reduzido a uma sutil garoa. Não demorou muito e chegaram à casa de Aurora.
              – Fique com o guarda-chuva. – disse Aurora imaginando que não o tomaria mais.
              – E você?
              – A chuva sempre me atraiu… – Aurora desceu do carro, acreditando que ficaria bem ao passar a tempestade.
              
              
              Havia três dias que Aurora olhava seus e-mails como se esperasse por algo, não sabendo o que esperar ao certo. Mas uma ansiedade a incomodava. Era como se um sonho a estivesse tentando avisar de algo, porém sequer se lembrava de seus sonhos ao acordar. E já não sonhava mais acordada.
              Desligara o computador e fora se deitar. Já eram altas horas da madrugada e ela continuava olhando o céu nublado, com um carinho pelas grades da janela de seu quarto que a mantinham com os pensamentos moldados aos vãos verticais.
              Frederico não deixara ou respondera mensagens. Não que lhe devesse alguma, mas Aurora, ainda assim, suspirava perante tais possibilidades. Talvez fosse daí que brotara sua inquietude, mas sequer trocavam e-mails ou ligações… e suas fotos haviam se perdido junto à memória do computador. Aurora não possuía uma lembrança sequer de Frederico, exceto as presente em sua mente que, com o tempo, se perderiam. “É como se já nem existisse…” soou em seus pensamentos essa frase que não lhe era estranha.

O Leite Derramado em boa hora

Eulálio d’Assumpção, em sua memória ou devo dizer em minha… acho que já estou lendo demais.

Estava eu há meses com a mente inquieta, pensamentos que iam e vinham de forma incoerente que já não pareciam reais, eu mesma também já não parecia.

A saudade de mim mesma estranhamente me inundava, havia me perdido por dentro de ideais que eu mesma construí, neura por neura, conceitos por vez. Era a ética e a moral que eu mesma impus a mim me sufocando.

O Cais já parecia distante, quase miragem… e eu, feliz, não ansiava mais atracar, pelo contrário, enquanto nadava em direção a ele, as braçadas me davam mais força para querer viajar.

A semente estava plantada.

E por mais estranho que isso soe, foi na van, naquelas as quais jurei não mais pegar, que me encontrei. Em meio ao cheiro de perfumes cítricos ali presentes, daqueles que agridem as narinas de forma brusca, das fofocas ali contadas e das músicas de um gosto não tão agradável, mas que por osmose já conhecia, ali… encontrei-me contendo um riso, afrontando ideias, deleitando-me novamente em mim mesma, como há tempos não havia feito.

Culpa do Sr. Assumpção, que com tamanho carinho sinto poder chamar pelo primeiro nome, ele que com sua língua solta e, assim como eu, uma mente confusa, conseguiu me aquietar as angústias.

Mais um dia comum…

              O semestre havia começado há duas semanas.
              Katrina passara correndo pelo pátio pensando se daria tempo de assinar o ponto, pela hora sequer veria seu cúmplice de olhares, estava mais atrasada do que havia pretendido.
              Por sorte chegou a tempo, entrou na sala de sua chefe com o último sinal de tolerância ecoando em seus ouvidos. Helena comentara sobre sua ausência no dia anterior, Katrina adoraria imaginar o quanto descansara, porém não ocorrera assim, havia passado a tarde aguardando atendimento em um consultório médico, então apenas assinou na data correta como se nada tivesse acontecido no dia anterior e o comentário de sua chefe fosse apenas uma distante memória.

              “Estiveram umas pessoas aqui ontem, a sua procura…” Helena falou com tom mais curioso do que informativo, Katrina retribuiu o olhar, deu de ombros e então partiu em direção a sua sala, perguntando-se quem seriam as pessoas que a procuraram.
              Agora sozinha em sua sala, o silêncio e o tédio a consumiam, nem as músicas ajudavam. Olhava a sala em cada extremo, as mesas repletas de poeira e o vento cantando por entre as brechas das janelas davam o clima aconchegante para um cochilo, porém o sol estava passando pela abertura de vidro na porta, deixando a temperatura semelhante à de um inferno; ou seria apenas sua mente que a encaminhava para esta conclusão.
              Apenas mais uma tarde de trabalho comum, faltavam 20 minutos, na eternidade, para 5h, sua mesa agora mostrava a confusão de seus pensamentos… Havia vários papéis rabiscados, embalagens de bala e migalhas da borracha usada excessivamente, tudo de forma desordenada.
              Decidiu ignorar tal dilúvio que torcia para ser momentâneo e se rendeu a beleza que estava a passos de sua visão.
              O sinal soou a acordando de forma inesperada. “A eternidade pode não ser tão ruim assim…” pensou enquanto trancava a porta da sala.

Natália Nascimento

Entrelinhas

              Às dez horas e cinquenta e nove minutos da noite, olhando o céu e pensando em você, imagino se deveria mandar uma mensagem; nesse meio tempo, conto cinco estrelas, não encontro a lua. As paredes do meu quarto parecem partes de uma caixa com o intuito de cegar minha visão “Devo de te ligar e dizer como estou, para então perguntar como está?”, conto mais estrelas.

              Nesse jogo de olhos míopes contra si mesmos, o mais complicado é separar pensamentos, pois o brilho das estrelas por mais fraco e borrado que seja ao menos é um pouco definido. Um, dois e seis… mais algumas estrelas, nesse método me perdi, nem mandei ou recebi.

              Agora tudo ecoa, já estou na alameda de um sonho, correndo contra o tempo e agora contando avenidas ultrapassadas.

Natália Nascimento

O silêncio de Mariana

              “Como aqueles grandes casais que namoram há anos, nós os alcançamos, deveria ser uma sensação incrível, porém não é este o sentimento.” Ela contava a seu terapeuta.

              Acordou ao seu lado, o cheiro de sua pele ou até mesmo seu hálito passavam despercebidos à suas narinas, agora tais cheiros lhe eram tão neutros quanto seu próprio perfume.
              Ele lhe dera um beijo na testa e disse
– Hoje faz cinco anos e exatos sete meses.
              Mariana fingia dormir sentindo tais palavras lhe perfurarem o peito. Seria melhor estar dormindo para quem sabe esquecer esta data, pensava.

              “Cinco anos” dizia ela com tom pesaroso. Seu terapeuta apenas a ouvia, tentando deixá-la compreender o que acontecia.  “Às vezes me pergunto, enquanto estou deitada com ele, como chegamos a estes cinco anos completos e ainda somando.”

– Para mulher mais encantadora que eu já conheci um café com suas torradas favoritas. – Ela agora fingia despertar.
– Bom dia! Café com torradas? O que fiz de tão especial?

              “A forma como minhas palavras soam com ele me assusta, é uma versão romântica de mim com ele.”

– Nada, somente quis lhe fazer um agrado. Estou indo trabalhar. – Beijara-lhe a testa e se foi.
              Comeu uma torrada e continuou deitada à cama, sua mente fluía de forma aleatória, até que se lembrou do dia em que se conheceram.

              Ela havia acabado um relacionamento uns dias antes da festa. Naquela noite, todos pareciam ter um par ou xaveco, exceto ela. Devia ser coisa de sua mente, como se estivesse procurando motivos para se sentir mal. Até que um de seus amigos apresentou-lhe Carlos, que possuía um incrível sorriso e um humor contagiante.

– Onde estaria seu encanto que avistei há tanto tempo atrás? – Ela sussurrou para si mesma enquanto olhava além do teto sobre a cama.

              Depois daquela festa saíram muitas vezes. Ele se tornava cada vez mais encantador, tão compreensível e maturo.

              “Então quer dizer que pela primeira vez, vocês brigaram?” José Roberto, seu terapeuta, indagou quebrando o silêncio no consultório.
              As memórias estão confusas, ela repetia para si em pensamentos.
              “A primeira declarada, nossas brigas são silenciosas.” Deixou soar em meio ao cansaço mental.

– Por que não quer sair hoje? – Ela tentava parecer calma, mas sua paciência já estava no limite.
– Sairmos pra quê? Vamos comemorar nosso relacionamento fracassado? Tantos momentos incríveis que você sequer recordava? – Carlos estava triste, mas havia em sua voz uma raiva mista a decepção que Mariana jamais havia visto nele, a surpresa lhe trouxe a calma novamente.
– Sabes que não sou boa com datas… – Ela disse, então tomando seu corpo para mais perto e beijando-lhe a nuca e pescoço, enquanto suas mãos acariciavam seu ombro e cabeça, lhe bagunçando o cabelo. – Me desculpe. Vamos ficar em casa hoje.
              Com um sorriso retido ele concorda. – Eu só quero que tudo fique bem. – Ignorando essa frase ela lhe dá um beijo enquanto se levanta sutilmente, virando-se de costas, ela abre o sutiã e o deixa cair ao chão, seguindo para o quarto, antes de entrar nele olha para trás com um sorriso contido por entre lábios e então apaga as luzes. Carlos se levanta e vai até o quarto, fechando a porta atrás de si.

              “Se é que chama aquilo de briga. Era a chance de explicar a ele o que sinto.” Mariana se levantou e andou de um lado a outro na frente de sua poltrona, olhava para frente, no entanto seu olhar atravessava isso.

              Sua mente não conseguia mais ver além do teto. Sentou-se à cama e tomou seu café, embaixo da garrafa havia um bilhete de Carlos.

              “Desculpe ter falado besteira ontem, eu não penso que nosso relacionamento é um fracasso.” – Uma pena, não concordarmos até nisso. – Sussurrou Mariana após terminar de ler a carta, agora não mais andando de um lado a outro no consultório. Parou por uns instantes e foi para sua poltrona sentar-se, dobrou o bilhete e guardou-o no bolso.
              “Havia somente isso no bilhete?” indagou Roberto.
              “De relevante sim.” Mariana pensou no restante escrito.

“Esta noite foi incrível, temos até meia noite para comemorarmos nossos cinco anos e sete meses. Vou sair mais cedo do trabalho e podemos ir jantar fora.

                                                                                                                                                 Amo-te, até às 18h, Carlos.”

              Mariana colocou o bilhete sobre a cômoda e terminou de tomar café. Quando olhou a hora lembrou-se que teria uma consulta com Roberto as 16h.
              – Tenho pouco, tempo… – Começou então a pensar no que haveria acontecido entre ela e Carlos para chegarem neste sentimento sem definição ao qual ele insistia dizer que era amor. Pensou então que talvez não conseguisse dizer a ele pessoalmente o que sentia, teve uma ideia. Abriu uma das gavetas de sua cômoda, pegou um caderno de papeis para carta e começou a descrever o que acreditava ser o que estava acontecendo e o melhor a se fazer, as memórias de cinco longos anos lhe reviraram a mente.
Ao terminar a carta pegou tudo que achava necessário, colocou em uma mala, arrumou a casa e a cama, olhou uma última vez para a vista da sacada, deixou a carta sobre a mesa e partiu.

              “Bom Roberto, acho que esta será nossa última sessão, estou indo passar uns dias na casa dos meus pais e quando retornar eu não pretendo retomar os atuais, todavia em breve, antigos hábitos.”
              “Compreendo Mariana, você parece melhor agora.” Roberto olhou seu relógio de pulso e se levantou para acompanha-la até a porta, como sempre fazia.

“… tenho certo medo, minhas memórias antigas lhe tornam incrível, contudo o nosso cotidiano as desgastam. Eu quando lhe conheci disse que não gostaria de ser desses casais que permanecem juntos pela bagagem, como se estivessem acomodados a algo que desgostam, mas faz tanto tempo que já nem se importam mais, ou devo dizer que fingem não se importar.

Sabe, eu ainda não gosto de ser desses casais e hoje forcei-me para encará-lo de certa forma, e não sê-lo.

Com afeto, Mariana.”

 

                Amassou a carta e jogou-a no bolso mais fundo de sua calça, pegou o carro e dirigiu até o bar mais próximo. Tomando em bebidas o que lhe serviam como surras para esquecer o que havia de ser em Mariana e suas memórias hoje mais frescas.

Natália Nascimento