Badameco

“Havia algo de estranho em seu olhar, era como se eles tentassem me narrar algo ao qual eu ainda não tinha capacidade para traduzir. Eram como hieróglifos antigos”.

              
              Passava da meia-noite e Isaq ainda não estava interessado em voltar para casa.
– O mundo está em torno de uma forma vaga! – gritava um senhor à frente café no qual ele estava. Pensava consigo que seria melhor ignorá-lo para evitar problemas, enquanto isso tomava notas sobre o livro que estava a ler.
– Seu cappuccino com chocolate, senhor! – anunciou o atendente quebrando sua concentração. Ele abre espaço entre os livros e agradece com um aceno de cabeça. Toma um gole e retorna a revezar entre a leitura e algumas anotações.
              
              
              – Há meses que não largas este livro, será que não pode falar comigo hoje?! – comentou Camila, mais passiva do que pretendia – O que há de tão interessante? – disse puxando o livro das mãos de Isaq, que a ignorava até então.
– Não! – levantou-se num pulo, tentando pegar de volta o livro, sem obter sucesso – Camila me devolva o livro agora! – falou, deixando soar todo estresse pela situação.
– Que língua e desenhos são esses? – indagou ela, parecendo se divertir com o seu estresse – Não estou entendendo muito… – continuou, enquanto folheava as páginas.
– Camila… – respirou fundo – é um livro antigo, por favor… – continuou, saindo detrás da escrivaninha – tome mais cuidado. – concluiu, tomando por entre suas mãos a cintura dela; que por sua vez fechou o livro, colocando-o sobre a mesa.
–Se soubesse, haveria tomado de ti esse livro antes.
              
              
              “Deixe seu recado após o…” era a quinta tentativa. – Droga! Nem para atender o maldito telefone… – Camila decidiu então ir atrás do laboratório onde ele trabalhava, imaginando que se distraíra com alguma pesquisa. Desceu do carro, olhando para os lados com certa desconfiança; não imaginara que aquele estacionamento poderia ser tão macabro sob a luz dos postes.
              Foi atravessando o caminho delimitado por placas de concreto sobre a grama; sentia o cenário ficar cada vez mais sombrio. Havia vários insetos batendo na proteção da lâmpada do poste. Era este ruído e o de seus sapatos que quebravam o silêncio.
              Por um momento Camila jurou ver uma silhueta por entre as árvores e uma luz de relance iluminar alguns galhos. Assustada, decidiu parar para tentar ouvir melhor os sons ao seu redor. Neste exato momento, seu telefone tocou, fazendo seu coração palpitar freneticamente; era Isaq.
– Oi! Estou perto do laboratório. Onde está? – disse, deixando a respiração mais profunda lhe confortar.
– Laboratório?! Que estais fazendo aí, Camila? – mas a indagação de Isaq, cortou-lhe qualquer possibilidade de calma.
– Há mais de uma hora atrás me ligaste para que viesse lhe buscar… – Camila agora estava sentindo o pânico tomar-lhe os nervos.
– Camila, eu não lhe liguei… Essa brincadeira não tem graça – disse-lhe ele, impaciente.
              Ouvira atrás de si um ruído de passos a se aproximar, neste momento, a luz do poste falhou. Com o coração a ponto de lhe saltar a boca, Camila correu em direção ao bloco principal, deixando Isaq sem resposta do outro lado da linha.
              Agora em frente à fonte do bloco principal, Camila deu de frente com um senhor; este mesmo a notando descabelada e ofegante se mostrara indiferente.
– Já notara o céu hoje? – ele enfim declarou olhando para cima de si – É dia do alinhamento que coloca em liberdade o que os humanos têm de pior – ao concluir a frase, este se resumiu em encará-la com um sorriso que não lhe parecia nada agradável.
              Atônica, Camila desviou o olhar para escadaria atrás de si que dava para porta de entrada principal do bloco, notou-a semiaberta e se lembrou de Isaq. Colocou o telefone sobre a orelha novamente.
– Camila… Camila! – praticamente gritava do outro lado da linha – Pare de brincadeiras, Camila. Responda-me! – sua voz nitidamente alterada.
– Não estou de brincadeiras, Isaq… – Camila deixou transparecer a insegurança que sentia – Me diga, por favor, que é você fazendo isso… – ela ainda estava a encarar a porta semiaberta, seus olhos agora começavam a ficar borrados.
– Com quem estava falando? Há alguém contigo aí? – de repente todo estresse deu espaço a preocupação, a voz falha dela deixou claro não estar de brincadeira. Um silêncio seguiu – Camila?! Saia daí agora! Eu não estou aí… Saí às 18h, como sempre… – somente a respiração ofegante dela era a resposta.
              Ao ouvir tais palavras era como se a frase do senhor ecoasse em sua mente. Então se virou para perguntar o que estava realmente acontecendo ali, e assim que olhou novamente a fonte, tomou um susto; o senhor não estava mais ali, em seu lugar estava um gato rajado a encará-la. O susto fez Camila recuar, ela acabou caindo ao pé da escadaria. Um pouco distante de si, luzes piscaram por entre os troncos quase fundidos das árvores. Tomada pelo horror, sua respiração em um solavanco a deu forças para se levantar e correr rumo à porta principal. Atrás de si era possível ouvir passos apressados, agora despreocupados em ser notados. No alvoroço para se colocar em pé, Camila deixara cair o celular.
              
              
– Camila?! – despertou como se estivesse dormindo há muito tempo – Camila?! – ouviu seu chefe continuar a chamá-la e se forçou a tentar reagir.
– Sim?! – disse meio mecanicamente por entre dentes semicerrados.
– Os documentos anexados ao memorando, até às 17h de hoje; se continuar dormindo acordada não terminará nunca. – concluiu jogando sobre a mesa uns papéis. Camila não respondeu, estava ainda com o olhar fixo a sua frente, olhando além da tela de espera do computador.
              Naquela tarde acabou por atrasar alguns prazos e só saiu do escritório às 19h. Isaq havia pegado o carro neste dia, então decidira ir a pé para casa. No caminho, Camila notou que havia um gato rajado a segui-la; parou e se pôs de joelhos a chamá-lo, este veio correndo receber o afago. Não demorou muito e ele já estava deitado com a barriga para cima a ronronar. Camila notara uma coleira presa a seu pescoço com um pingente pendurado, nele estava gravado “Pili”.
– Olha só, que nome inusitado… – disse aumentando a intensidade de suas carícias. Sentiu sob o bolso da calça o celular vibrando, era Isaq perguntando onde estava –Preciso ir agora, Pili. – disse concluindo com um carinho em seu queixo e se levantando – Volte para casa… – disse imaginando que ele teria uma, já que estava usando coleira. E se foi. Pili continuou ali, agora sentado, vendo-a se distanciar.
              Ao chegar a casa, foi recepcionada com um jantar digno de elogios.
– Boa noite! – cumprimentou Isaq, sorridente, enquanto saía da cozinha com um vinho em mãos – Hoje iremos comemorar – continuou empolgado – esta tarde, fiz uma descoberta que poderá mudar nossas vidas e a história. – concluiu como quem conclui um discurso e espera os aplausos.
– Ora, ora… – disse Camila, após bater palmas em tom de brincadeira, sem entender muito, porém se deixando levar pela empolgação de Isaq, este apenas riu e deu de ombros brincando mostrar modéstia – Mas então, do que se trata esta descoberta mágica?! – aproximou-se dele, dando-lhe um beijo, então foi em direção à cozinha lavar as mãos para jantarem.
– Ainda não sei ao certo com toda certeza – disse Isaq, com certo mistério na voz.
              Conversavam como se algo grandioso estivesse por vir. Isaq lhe narrara como havia encontrado um livro antigo. Sua equipe havia, cuidadosamente, escavado durante meses um terreno com indícios históricos, sem obterem uma resposta sequer. No entanto, na noite anterior, tinham chegado a um nível do terreno que apresentava uma camada que poderia ser identificada como uma edificação muito antiga; e somente naquela tarde é que encontraram objetos que indicavam a existência de uma sociedade. Dentre estes, Isaq achou o tal livro, que possuía uma escrita considerada criptografada; sua equipe havia o embalado para estudo e Isaq assinara uma licença para estudá-lo fora das mediações de seu laboratório. Já que se tratava de uma pesquisa nível de governo, Camila lembrou daquelas agentes de filmes fantasiosos demais para seu cotidiano e agora ironicamente se sentia próxima de ser uma possível guardiã de um segredo importante.
              Isaq notando seu devaneio pegou de sua bolsa, que estava sobre o chão, ao lado de sua cadeira, o livro, que estava meticulosamente plastificado. Camila tinha, agora, toda sua atenção voltada para ele.
– Há desenhos que nunca vi. Criptogramas muito evoluídos para época seja esta qual for – comentou, folheando algumas páginas e mostrando-as para Camila. A escrita quase apagada pelo tempo ficava contrastada com os desenhos de traços ainda escuros.
              Em uma das páginas um símbolo, em especial, chamou a atenção de Camila – O que significa este? – disse, apontando-o.
– É justamente isso que me intriga… – fez uma pausa, analisando a página por inteiro – Este símbolo é de origem egípcia, é curioso haver associações de um povo tão distante. Ele significa “nascido em segundo lugar” os egípcios e outros povos usavam essa expressão para nomear aqueles que eles consideravam capazes de transitar entre dois mundos; o dos vivos e dos mortos. Conta-se também que somente semideuses podiam vê-los, meros mortais só os viam quando a morte estava próxima ou então os próprios mortos. – Camila sentiu um arrepio lhe subir pela espinha –Mas é claro que são apenas histórias de povos antigos com muitas crenças e superstições nunca provadas – concluiu com um sorriso, notando o desconforto de Camila.
– Então podemos estar diante de indícios de uma sociedade nunca narrada antes? –
              Isaq respondeu com um aceno afirmativo com a cabeça. Naquela noite conversaram ainda sobre outros assuntos; mesmo feliz com a descoberta de Isaq, algo naquele símbolo inquietava Camila.
              
              
              Há três dias, Isaq analisava um símbolo que aparecia em várias citações no livro como em notas explicativas. Ao que parecia, o livro narrava rituais místicos dessa sociedade.
              Ao olhar a hora em seu celular, notara duas ligações perdidas do laboratório, além de uma de Camila. Isaq imaginou que, pela hora, seu assistente havia ficado até tarde no laboratório e quem sabe descoberto algo. Pensara em lhe retornar, porém exatamente quando acessou página de registros, seu celular tocou, era um número restrito.
– Sim?! – atendeu alterando a voz.
– Isaq, onde está? Sai do escritório agora. – a voz conhecida lhe dera um conforto – Meu celular descarregou, peguei um emprestado aqui na recepção.
– Mata-me de susto! – Isaq deixou soar por entre um suspiro de alívio.
– Que houve? – indagou a voz, sem entender.
– Deixe para lá. Estou no Café de sempre, venha para cá e vamos juntos para casa.
              
              
              – Algum trocado moça? – um flanelinha disse, batendo no vidro do carro. Não havia vagas na rua do Café, Camila acabara entrando em uma das transversais próximas.
              Fez um sinal de não com a cabeça, manobrou o carro, deixando-o bem no foco de luz do poste. Desceu olhando para os lados, com certa desconfiança. Havia insetos batendo na proteção da lâmpada do poste. Era este ruído e o de seus sapatos se chocando com o chão que quebravam o silêncio.
              Conseguira notar um gato sentado a encará-la, sob a luz do poste mais a frente; por maior que fosse sua compaixão por animais, Camila não conseguiu conter o arrepio que aquela visão lhe despertara, havia algo de familiar naquele animal.
              Quando aparentemente estava com os pensamentos próximos de uma resposta, seu telefone tocou.
– Estou a duas ruas daí… – disse, sentindo os pensamentos ficarem distantes e a realidade mais próxima.
– Camila, eu descobri algo, e inexplicavelmente sinto que você precisa saber…
– Já estou chegando, então conversamos. – disse ela, se lembrando do trato que ambos fizeram de não tratarem de assuntos ligados ao livro por telefone.
– Aquele símbolo, Camila… – continuou ele, ignorando-a por completo – pode ser traduzido ao pé da letra como “Pili”… Significa algo para você?
              Tais palavras gelaram as mãos e fizeram tremer as pernas de Camila. De repente, o cenário ao seu redor começava a se desconstruir. Camila sentiu a vista embaçar e suas pálpebras pareciam pesar toneladas. Não suportando, levou as mãos ao rosto e esfregou-as sobre os olhos. Quando tornou a abri-los estava de frente à escadaria principal da universidade onde Isaq trabalhava.
“Já vira o céu hoje?” uma voz familiar ecoou atrás de si, fazendo-a estremecer.
– Isaq, eu já vi isso acontecer… – Camila estava apavorada.
“Pelo visto sabe que dia é hoje…” continuou a voz, agora em um tom sarcástico.
              Como nas lembranças de Camila passos apressados se moviam em sua direção, vindos das árvores. Sem se atrever a olhar para trás, ela tomou fôlego e se pôs a correr escadaria acima.
“Não adianta correr, senhorita Camila. Podemos nos encontrar aqui e agora ou depois deste tempo”, a voz agora soava distante, no entanto o som dos passos pareciam se aproximar com mais velocidade.
              Ao atravessar a porta principal, Camila travou a porta e seguiu correndo. Ao adentrar no primeiro laboratório que encontrou destrancado, ouviu o som da porta sendo arrombada atrás de si. Sentiu que este seria o fim e cedeu sobre o chão, de joelhos, levando as mãos sobre o rosto e esperando pelo pior.
              Só conseguia ouvir a batida de seu próprio coração descompassado e então sentiu o celular vibrar sob o bolso da calça, quando abriu os olhos estava na rua que ficava no caminho para sua casa e a sua frente estava um gato rajado sentado a observá-la.
              Sem entender, Camila pegou o telefone e leu a mensagem de um número desconhecido.
“Nem todos os hieróglifos são decifráveis”.
              Confusa, Camila olhou o gato e checou se a coleira ainda estava em seu pescoço. De fato estava e em seu pingente estava agora gravado “Isaq”.

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3 pensamentos sobre “Badameco

  1. Sr Baldo, estou encantado. Com um estilo literário que me agrada muito você agora tá com tudo. E espero que continue assim, porque senti a sua falta na sua pausa. Que venham mais contos incríveis como esse!

    • Muito obrigada por acompanhar o blog, Janderson. Foi um desafio seguir um estilo diferente e fico muito feliz que tenha apreciado. Que a inspiração nos ajude com os próximos contos. :3

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