A intempérie da aurora

 “A chuva sempre me atraiu. Esse céu nublado dando passagem para meus presságios de tempestade.”

              
              Aurora estava ali deitada, olhando-o e a imaginar como poderia conter em si tamanho carinho por Frederico; mesmo abraçados, era como se não estivessem perto o suficiente.
              Conheciam-se há apenas sete meses, mas seus olhos aprenderam a se comunicar em menos tempo.
              – Água ou fogo? – indagou Frederico.
              – Água – respondeu Aurora sem entender onde ele queria chegar.
              – Amanhecer ou pôr-do-sol? – continuou ele.
              – Pôr-do-sol, você…? –
              – Amanhecer. Pai ou mãe? – perguntou ele rapidamente.
              – Ouro de mina… – disse cantando. Ambos riram. – Certo… Pai e você? – respondeu agora mais confortável.
              – Pai também… – Frederico puxara os lençóis, os cobrindo, arrumara o travesseiro, agora melhor visualizando Aurora – Lembrança ou momento? – indagou.
              – Momento.
              – É… Momento também. – olhou para o teto como se pensasse em mais uma dessas perguntas. Não demorara muito, então ele voltara seus olhos para Aurora, que agora estava sentada e encostada a cabeceira da cama. – Amor ou paixão?
              E a pergunta acabara a pegando de surpresa. Era apenas uma pergunta, mas a escolha era tentadora. Havia algo na palavra amor que a entediava ao passo que também a encantava, parecia caber ali a inocência. Enquanto a paixão parecia quente, volátil… evaporável e intensa ao mesmo tempo.
              – Ah! Vamos lá, responda… Não é para pensar tanto assim… – disse Frederico, inquieto com sua demora.
              – Amor – por fim disse, sem muita certeza do que havia de tão atraente na paixão para tamanha dúvida. – Então, amor ou paixão? – perguntou tentando afastar de si tal pensamento.
              – Amor – respondeu Frederico, sem muito caso – E agora estou com aquela música na cabeça… – comentou isso e cantarolou um trecho. Aurora riu; ainda pensativa desviou o olhar para a parede à frente da cama, na qual encontrou seu próprio reflexo, meio apagado, em um dos quadros espelhados.
              –É como se já nem existisse… – pensou em voz alta, deixando transparecer a incerteza na voz.
              – Como assim? – indaga Frederico, como se a frase não lhe fizesse o menor sentido. A própria voz e a dele lhe soaram como um bumbo, afastando-a dos devaneios. Aurora preferiu ignorar a pergunta, se aproximou dele, beijando-lhe o maxilar e seguindo até os lábios.
              
              
              – Não acha que ficará tarde?
              – Céus! Que susto! – exclama Aurora rindo de si mesma – O que ficaria tarde? – pergunta tentando se acalmar.
              – Para nós voltarmos ao hotel… ? – retruca em tom inocente.
              – Nós? Não há nós… eu gostaria apenas de apreciar a vista. – responde enquanto se afasta em direção à praça. Ele simplesmente a segue e se senta ao seu lado no banco. Aurora nada diz, só se vira para ele e o observa, tentando conter o agrado que tal companhia despertara.
              – Sou Frederico… – mas disso Aurora já sabia. E então passaram o fim da tarde e início da noite conversando, naquele local que se escondia do centro da cidade em meio às construções antigas e árvores. Descobriram em si coincidências que não caberiam em um livro. Durante estas horas se perderam da noção de tempo.
Já era noite quando ouviram algumas vozes que mais pareciam ser de uma multidão a se aproximar.
              – Acho mais seguro voltarmos para o hotel…
              – Não seja tolo. Deve ser apenas um grupo de amigos. – disse-lhe tentando parecer despreocupada. Até ouvir as vozes aumentarem em volume. Segurou uma das mãos de Frederico e apressaram os passos por entre vielas fracamente iluminadas pela lua. Aurora ria, divertindo-se com o modo desengonçado como tropeçavam em algumas entradas elevadas das casas, porém o nervosismo ainda transbordava dos dois. E conforme o som da multidão se extinguia, diminuíam os passos.
              Com a multidão despistada, se foi também o senso de direção que indicava para que lado fosse o hotel. Entreolharam-se e seguiram, sem nada dizer, na busca de algo familiar naquelas ruas, até então desconhecidas, que os levasse até o hotel.
              Não demorou mais do que uma hora para o encontrarem. Já no hotel, notaram um grupo de jovens falando tão alto na recepção que poderiam jurar ser a, até então temida, multidão. Não houve comentário algum, somente risos envergonhados pela situação. Alguns amigos de Frederico que estavam ali fumando o cumprimentaram, já passava das duas horas da madrugada; Aurora aproveitou e se despediu. Ambos estavam tão ligados ainda que, naquela madrugada, em nada pensaram sobre o ocorrido.
              
              
              – Não irá falar nada sobre o filme, Aurora?
              – Hã?! Sim… foi interessante.
              – Somente…? – seus olhos agora já não se cruzavam com tanta frequência, e quando o faziam não havia diálogos, era apenas um estudo de dois vazios.
              
              
              – Almoço amanhã às 14h?
              – Está brincando?! Quem almoça esta hora?
              – Nós! – disse Aurora enquanto acariciava a nuca de Frederico. – Estou contando com um leve atraso de duas horas. – trocaram um olhar cúmplice quando Aurora concluiu a frase.
              – Marcado! – concordou Frederico com um sorriso no canto dos lábios.
              
              
              – Céus! O que é aquilo…
              – O que?
              – Ah! Desculpe-me, acabei pensando em voz alta. – Respondeu Aurora, envergonhada, ao desconhecido, enquanto desviava o olhar para Frederico, que já estava todo molhado e com seu guarda-chuva todo revirado, de mais nada adiantando. À medida que a chuva foi aumentando, Frederico correu para o carro, já não se importando com o guarda-chuva.
              Aurora, que observava tudo de longe, não conseguiu conter o riso ao vê-lo prender o guarda-chuva a porta, impedindo-a de se fechar. O desconhecido ainda lhe lançava olhares inquietos de interrogação.
              
              
              – Eu havia dito às 14h, já havia neste horário a sua possibilidade de atraso. Ainda precisou de mais 40min? – disse Aurora com um jeito irônico abrindo o portão da garagem.
              – Não sei do que estás falando… – retrucou Frederico, galanteador como sempre. –Madame! – disse-lhe abrindo a porta do carro – Está linda hoje! – concluiu, com um olhar sedutor.
              – Obrigada! – Respondeu rindo sem jeito. Desengonçada, acabara batendo a cabeça antes de entrar completamente no carro. Frederico tentou conter o riso, no entanto, ao cruzarem os olhares, ambos caíram na gargalhada – O que a inveja de minha beleza não faz, não é? – riram a ponto de chorar, Frederico quase deixava cair das mãos o cigarro, felizmente não o fez; o terminou e entrou no carro.
              – Para onde vamos então? – disse empolgado, ao colocar o cinto.
              – Imaginei um ótimo restaurante. Dizem que a comida é fantástica.
              – Dizem? – indagou Frederico, assustado – Não conhece lá?
              – Iremos conhecer! – respondeu Aurora com um sorriso empolgado – Não poderia ser uma cobaia desacompanhada – e somente após falar é que se deu conta de que talvez não fosse lá uma boa ideia como imaginara. Sorte sua que havia se enganado.

 

              – Creio que seja “somente” isto mesmo. –
              – E qual era mesmo o nome do filme…? – Aurora o encarou por alguns instantes e desviou o olhar para a janela, perdendo-se ao olhar a estrada passar em vultos; sequer respondera. A chuva, antes em rajadas, havia se reduzido a uma sutil garoa. Não demorou muito e chegaram à casa de Aurora.
              – Fique com o guarda-chuva. – disse Aurora imaginando que não o tomaria mais.
              – E você?
              – A chuva sempre me atraiu… – Aurora desceu do carro, acreditando que ficaria bem ao passar a tempestade.
              
              
              Havia três dias que Aurora olhava seus e-mails como se esperasse por algo, não sabendo o que esperar ao certo. Mas uma ansiedade a incomodava. Era como se um sonho a estivesse tentando avisar de algo, porém sequer se lembrava de seus sonhos ao acordar. E já não sonhava mais acordada.
              Desligara o computador e fora se deitar. Já eram altas horas da madrugada e ela continuava olhando o céu nublado, com um carinho pelas grades da janela de seu quarto que a mantinham com os pensamentos moldados aos vãos verticais.
              Frederico não deixara ou respondera mensagens. Não que lhe devesse alguma, mas Aurora, ainda assim, suspirava perante tais possibilidades. Talvez fosse daí que brotara sua inquietude, mas sequer trocavam e-mails ou ligações… e suas fotos haviam se perdido junto à memória do computador. Aurora não possuía uma lembrança sequer de Frederico, exceto as presente em sua mente que, com o tempo, se perderiam. “É como se já nem existisse…” soou em seus pensamentos essa frase que não lhe era estranha.

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