O silêncio de Mariana

              “Como aqueles grandes casais que namoram há anos, nós os alcançamos, deveria ser uma sensação incrível, porém não é este o sentimento.” Ela contava a seu terapeuta.

              Acordou ao seu lado, o cheiro de sua pele ou até mesmo seu hálito passavam despercebidos à suas narinas, agora tais cheiros lhe eram tão neutros quanto seu próprio perfume.
              Ele lhe dera um beijo na testa e disse
– Hoje faz cinco anos e exatos sete meses.
              Mariana fingia dormir sentindo tais palavras lhe perfurarem o peito. Seria melhor estar dormindo para quem sabe esquecer esta data, pensava.

              “Cinco anos” dizia ela com tom pesaroso. Seu terapeuta apenas a ouvia, tentando deixá-la compreender o que acontecia.  “Às vezes me pergunto, enquanto estou deitada com ele, como chegamos a estes cinco anos completos e ainda somando.”

– Para mulher mais encantadora que eu já conheci um café com suas torradas favoritas. – Ela agora fingia despertar.
– Bom dia! Café com torradas? O que fiz de tão especial?

              “A forma como minhas palavras soam com ele me assusta, é uma versão romântica de mim com ele.”

– Nada, somente quis lhe fazer um agrado. Estou indo trabalhar. – Beijara-lhe a testa e se foi.
              Comeu uma torrada e continuou deitada à cama, sua mente fluía de forma aleatória, até que se lembrou do dia em que se conheceram.

              Ela havia acabado um relacionamento uns dias antes da festa. Naquela noite, todos pareciam ter um par ou xaveco, exceto ela. Devia ser coisa de sua mente, como se estivesse procurando motivos para se sentir mal. Até que um de seus amigos apresentou-lhe Carlos, que possuía um incrível sorriso e um humor contagiante.

– Onde estaria seu encanto que avistei há tanto tempo atrás? – Ela sussurrou para si mesma enquanto olhava além do teto sobre a cama.

              Depois daquela festa saíram muitas vezes. Ele se tornava cada vez mais encantador, tão compreensível e maturo.

              “Então quer dizer que pela primeira vez, vocês brigaram?” José Roberto, seu terapeuta, indagou quebrando o silêncio no consultório.
              As memórias estão confusas, ela repetia para si em pensamentos.
              “A primeira declarada, nossas brigas são silenciosas.” Deixou soar em meio ao cansaço mental.

– Por que não quer sair hoje? – Ela tentava parecer calma, mas sua paciência já estava no limite.
– Sairmos pra quê? Vamos comemorar nosso relacionamento fracassado? Tantos momentos incríveis que você sequer recordava? – Carlos estava triste, mas havia em sua voz uma raiva mista a decepção que Mariana jamais havia visto nele, a surpresa lhe trouxe a calma novamente.
– Sabes que não sou boa com datas… – Ela disse, então tomando seu corpo para mais perto e beijando-lhe a nuca e pescoço, enquanto suas mãos acariciavam seu ombro e cabeça, lhe bagunçando o cabelo. – Me desculpe. Vamos ficar em casa hoje.
              Com um sorriso retido ele concorda. – Eu só quero que tudo fique bem. – Ignorando essa frase ela lhe dá um beijo enquanto se levanta sutilmente, virando-se de costas, ela abre o sutiã e o deixa cair ao chão, seguindo para o quarto, antes de entrar nele olha para trás com um sorriso contido por entre lábios e então apaga as luzes. Carlos se levanta e vai até o quarto, fechando a porta atrás de si.

              “Se é que chama aquilo de briga. Era a chance de explicar a ele o que sinto.” Mariana se levantou e andou de um lado a outro na frente de sua poltrona, olhava para frente, no entanto seu olhar atravessava isso.

              Sua mente não conseguia mais ver além do teto. Sentou-se à cama e tomou seu café, embaixo da garrafa havia um bilhete de Carlos.

              “Desculpe ter falado besteira ontem, eu não penso que nosso relacionamento é um fracasso.” – Uma pena, não concordarmos até nisso. – Sussurrou Mariana após terminar de ler a carta, agora não mais andando de um lado a outro no consultório. Parou por uns instantes e foi para sua poltrona sentar-se, dobrou o bilhete e guardou-o no bolso.
              “Havia somente isso no bilhete?” indagou Roberto.
              “De relevante sim.” Mariana pensou no restante escrito.

“Esta noite foi incrível, temos até meia noite para comemorarmos nossos cinco anos e sete meses. Vou sair mais cedo do trabalho e podemos ir jantar fora.

                                                                                                                                                 Amo-te, até às 18h, Carlos.”

              Mariana colocou o bilhete sobre a cômoda e terminou de tomar café. Quando olhou a hora lembrou-se que teria uma consulta com Roberto as 16h.
              – Tenho pouco, tempo… – Começou então a pensar no que haveria acontecido entre ela e Carlos para chegarem neste sentimento sem definição ao qual ele insistia dizer que era amor. Pensou então que talvez não conseguisse dizer a ele pessoalmente o que sentia, teve uma ideia. Abriu uma das gavetas de sua cômoda, pegou um caderno de papeis para carta e começou a descrever o que acreditava ser o que estava acontecendo e o melhor a se fazer, as memórias de cinco longos anos lhe reviraram a mente.
Ao terminar a carta pegou tudo que achava necessário, colocou em uma mala, arrumou a casa e a cama, olhou uma última vez para a vista da sacada, deixou a carta sobre a mesa e partiu.

              “Bom Roberto, acho que esta será nossa última sessão, estou indo passar uns dias na casa dos meus pais e quando retornar eu não pretendo retomar os atuais, todavia em breve, antigos hábitos.”
              “Compreendo Mariana, você parece melhor agora.” Roberto olhou seu relógio de pulso e se levantou para acompanha-la até a porta, como sempre fazia.

“… tenho certo medo, minhas memórias antigas lhe tornam incrível, contudo o nosso cotidiano as desgastam. Eu quando lhe conheci disse que não gostaria de ser desses casais que permanecem juntos pela bagagem, como se estivessem acomodados a algo que desgostam, mas faz tanto tempo que já nem se importam mais, ou devo dizer que fingem não se importar.

Sabe, eu ainda não gosto de ser desses casais e hoje forcei-me para encará-lo de certa forma, e não sê-lo.

Com afeto, Mariana.”

 

                Amassou a carta e jogou-a no bolso mais fundo de sua calça, pegou o carro e dirigiu até o bar mais próximo. Tomando em bebidas o que lhe serviam como surras para esquecer o que havia de ser em Mariana e suas memórias hoje mais frescas.

Natália Nascimento

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10 pensamentos sobre “O silêncio de Mariana

  1. Olha aí… Como te falei, gostei do conto por duas razões, uma é bem óbvia e a outra é bem inusitada. A razão inusitada, já te contei e não é necessário falar aqui. Hehehe XDDD A razão óbvia, que é o relevante a se registrar aqui, é que está bem escrito, seu texto é muito imersivo, e o tema é forte, ao menos pra mim, e é sempre interessante ler a respeito. Falar de amor é complicado dependendo do foco, e falar das confusões e disfunções relacionadas a ele em função do tempo deve ser ainda mais difícil, né? (Ou não, só o(a) autor(a) sabe. XDDD)

    Um ponto bacana é como o conto vai e volta no tempo. Uma construção bem legal mesmo, lembrei do estilo do Tarantino de contar as histórias dele, pois ele brinca com isso, de ir e voltar no tempo enquanto a história se desenrola. Muito bem, jovem. 😉

  2. Muito bom, gostei muito mesmo. O mais legal é que você entra na história entende e se vê como a personagem principal, muito bom a sua escrita e sempre curioso e intenso ler sobre o tema desse texto. O melhor até agora, espero por outros 😀

  3. gostei muito da dinâmica que a alternância do tempo deu a narrativa. parece mesmo um filme. no mais, gostei do trato do silêncio, que é tão difícil de lidar.

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